Montanhas do Paraná e do Brasil

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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Travessia ES/MG - Cristal, Calçado e Bandeiras

"Poderia aqui resumir essa jornada à Serra do Caparaó como loucura pura, não pela dificuldade da trilha, que afetou mais a respiração devido a altitude, afinal não é todo dia que você está cima dos 2.500mts de altura, mas enfrentar uma viagem de 18 horas de ida numa van com mais 14 loucos, dormir esprimidos, cansados e ainda ter força pra realizar nosso sonho e ainda tirar forças e enfrentar 21 horas de retorno, com certeza os normais nunca vão entender, mas pra nós loucos, estar em lugares assim, nos fazem viver a vida, sentir o sangue pulsar quente, sentir o cheiro do ar puro, ouvir o pulsar do nosso coração, saber que estamos vivos, não tem preço, garanto que enfrentaríamos tudo novamente, afinal ser louco não é pra qualquer um. "
Edinaldo Couto




Texto Reginaldo Mendes

O Preparo
Já havia muitos anos que a vontade de fazer o Pico da Bandeira era enorme mas a distância era o fator que mais pegava nessa empreitada e, também o custo que alguns cobravam para ir daqui de Curitiba-PR até Alto Caparaó-MG. Orcei uma van com “carretinha”, entrei em contato com alguns amigos da região para pegar o máximo de informação possível, os quais me indicaram lugares para acampar e também alguém para nos levar até nosso destino que era o Pico da Bandeira, uma montanha nada muito complicada ou tão difícil assim de fazer. Mas como queríamos muito mais, por que então não fazer a travessia de ES até MG passando por três das mais belas montanhas da região? Bandeiras com 2.892, Calçado com 2.849 e Cristal 2.770 metros, as quais estão entre as 10 mais altas do Brasil. Para isso era preciso só encontrar alguns loucos para essa empreitada, o que não foi difícil, afinal quem ama montanhismo está disposto a tudo. Então convidei alguns amigos para dividir tudo e todos toparam de imediato.

A viagem
Foram 8 meses de estudo sobre a trilha, preparando a logística, mudando trajetos e pegando o máximo de dicas possíveis. Fechei um pacote com o Roberto do Restaurante Mineiro, que tem toda a estrutura que precisamos, camping, restaurante e Jeep 4x4, para nos levar até ao começo da trilha.
Saímos de Curitiba no dia 28/04 as 20:00. Nossa previsão de chegar até ao Alto Caparaó era as 14:00 do dia 29/04, uma viagem longa, com duração de 18 horas, contando com paradas para banheiro e refeição. Foi uma viajem tranquila, sem trânsito chato e uma equipe bem animada. Utilizamos o revezamento de assentos dentro da van para evitar cansaço muscular. A van puxava uma “carretinha” com todos os nossos equipamentos de camping, evitando apertos dentro da van. Combinamos com todos que cada um levaria alguma coisa para tomarmos café na ida. Entre 7 ou 8 horas da manhã começamos a procurar um lugar apropriado na estrada para pararmos e tomamos nosso café. Bem pra frente da cidade de Resende - RJ encontramos um posto e do lado um bar com mesas, mas não tinha ninguém no local. Mesmo assim encaramos! Entramos, um pouco preocupados, pois estávamos lá sem autorização, juntamos umas mesas e lá mesmo tomamos aquele café reforçado. Ninguém apareceu e conseguimos tomar nosso café tranquilamente. Ao sairmos deixamos tudo limpo. Continuamos nossa viajem e a próxima parada seria somente para almoçar. Depois do almoço já estávamos a 100 km do Alto Caparaó, mas parecia que não chegava nunca, uma eternidade! Nossa previsão de chegada ao destino era as 14:00 horas, pois tínhamos um projeto de conhecer o Vale Encantado, mas já era em vão, isso não aconteceu! Já passava das 15:00 quando chegamos ao Alto Caparaó. Tiramos algumas fotos do portal e fomos para o camping, onde o pessoal do Restaurante Mineiro nos esperava. Chegamos, desmontamos as coisas e dispensei o motorista, que ficou na pousada Bistrô. Depois de camping montado, banho tomado, jantamos e fomos conhecer a pequena cidade do Alto Caparaó.

30/04/2017 A travessia ES/MG
Já tínhamos tudo em mente como seria nossa travessia, só não era certeza se começaríamos pelo lado do MG ou ES, mas com algumas orientações e todo o suporte do Roberto, decidimos começar por ES mesmo.
No domingo dia 30/04 acordamos bem cedo, tomamos aquele café reforçado no Restaurante Mineiro e partimos com os Jeeps 4x4 até Pedra Menina - ES, onde está a portaria do Parque Nacional do Caparaó (lado ES). A viajem até Pedra Menina é longe, saímos as 7h para começarmos a trilha as 9h. Uns 50 km separam o camping onde estávamos até a portaria do lado ES. A estrada depois da portaria é bem chata de fazer. Com 4x4 já é difícil imagina com carro pequeno? Mesmo assim vimos alguns carros parados lá no camping na Casa Queimada. A estrada é alta e alguns trechos com muito barro por causa da chuva. Acredito que alguns que estavam com seus carros, aguardavam o momento certo para sair do parque com estrada seca.
Começamos nossa trilha as 9:10h. Depois de algumas fotos, combinei o resgate com o Roberto e partimos trilha acima. No começo da trilha tem uma subida um pouco pesada. Foi um momento que exigiu muito da respiração, pois estávamos a mais de 2.400 de altura. Nesse nível, é possível sentir o ar um pouco pesado e o ideal é começar lentamente até o corpo se acostumar. Nosso destino era o  pico Cristal. Encontramos algumas pessoas tanto descendo da montanha como subindo.

Pico Cristal 2.770 metros a 7° montanha mais alta do Brasil.
O Pico Cristal é a montanha mais alta localizada inteiramente dentro do território de Minas Gerias e já foi considerada a 4° mais alta do Brasil perdendo esse posto depois da última medição realizada.  O Pico do Cristal é um ponto maciço que possui essa denominação devido a suas abundantes formações rochosas de quartzo, apresentando paisagens de extrema beleza e sendo considerado por alguns um local mais impressionante que o próprio Pico da Bandeira, onde a vegetação é formada basicamente por bromélias e lírios sobre afloramentos rochosos, sendo o local parte da zona de maiores altitudes do parque. (fonte: Wikipedia).
Estávamos há mais de uma hora e meia caminhando quando avistamos uma subida mais intensa que levava até o pico do Calçado, onde, para a minha mente, era o local que se iniciava a trilha para o Cristal. As únicas informações que eu tinha era “só seguir os totens”. Não há placa informando a direção da montanha. Acabamos passando direto pela bifurcação e descobrimos, através de alguns montanhistas que a entrada era mais abaixo. Já estávamos bem próximo ao Calçado quando descobrimos isso! Resolvemos voltar até a bifurcação, onde tem em uma pedra com o desenho de um X e um totem indicando o local. Para nossa sorte o Percio estava com a trekking da trilha, mas mesmo assim alguns totens nos confundiam. Seguimos para um morro acima e pegamos à direita, mas o correto é sempre estar à esquerda. Como não tínhamos a visão do Cristal por causa da forte neblina ficamos bem perdidos. No entanto, com paciência eu, a Fernanda o Percio e o Sandro descemos confiando um pouco no GPS e evitando os totens de pedras, pois haviam muitos espalhados pela montanha. A outra parte do pessoal que estavam conosco havia ficado no cume do outro morro, enquanto nos localizávamos. Logo avistamos algumas silhuetas, e percebemos que estávamos na trilha correta. Esperamos o restante do nosso grupo e agora era só seguir alguns totens de pedras, e subir sem erro. O Cristal é uma montanha pouco visitada, é preciso fazer uma “escalaminhada” para chegar até o topo. Com cuidado e com muita calma, seguimos em trechos de rocha e muita pedra, passando por obstáculos não tão complicados, mas que requerem cuidado. Depois de 3 horas de caminhada chegamos ao cume do Cristal. A serração estava bem forte, por razões climáticas a neblina desceu um pouco, foi possível ver alguma coisa lá de cima. Fizemos um bom lanche pois já passava das 12:00h, depois descemos com cuidado.  Pegamos a trilha correta e voltamos até a base do Pico do Calçado.

Pico Calçado 2849 a quarta montanha mais alta do Brasil e Pico da Bandeira com 2892 metros
Para quem vem da portaria do lado ES o Calçado é o portal para se chegar até o Bandeiras. Seu nome se dá por causa da vista que, dependendo do ângulo, tem a formação de um calçado. Depois de 6 horas de caminhada chegamos ao cume dessa montanha e já era possível avistar o Pico da Bandeira. Paramos para um lanche, tiramos várias fotos e logo partimos rumo ao pico da Bandeira, a terceira montanha mais alta do Brasil, a mais alta da região sudeste e também a mais alta do Brasil em 100% dentro do território nacional. Tem esse nome por causa da história do nosso país. Por volta de 1859, o imperador Pedro II determinou que fosse colocada uma bandeira do Império naquele que, na época, era tido como o ponto mais alto e imponente do Brasil (fonte: Wikipedia).
Chegamos ao cume já passava das 14 horas e ali já haviam várias pessoas de toda a região. Contemplamos, curtimos aquele momento e tiramos muitas fotos. Por alguns instantes a serração forte baixava e era possível ver um pouco além, mas logo ela subia e assim perdíamos a bela vista. Não tinha vento e não estava frio, mas nada de vista! Peguei algumas informações com um guia da região que estava com um grupo de mais de 30 pessoas e ficamos lá mais uma hora contemplando aquele momento. Foi quando percebemos que só nós estávamos no cume. Já estávamos caminhando há mais de 6 horas, desde a Casa Queimada, agora era nos despedirmos de mais uma montanha conquistada e descermos até o Tronqueira.


O Fim da Travessia
Começamos a descer da montanha sentido Tronqueira, passamos pelo grupo de jovens que descia a montanha também e até tiraram fotos conosco. A trilha desse lado é mais limpa, tem mais água para pegar e bem pouco barro. Passamos por algumas cachoeiras e em pouco mais de uma hora chegamos ao Terreirão, um camping muito utilizado para se fazer ataque até o cume. Avistamos a casa do Terreirão que já foi palco da Guerrilha do Caparaó entre o Espirito Santo e Mina Gerais. Segundo informações que peguei a casa era usada para reunião de alguns guerrilheiros que ao serem descobertos foram presos. Alguns das nossa turma já estavam bem além de nós na trilha. Sem demora partimos destino Tronqueira. Ainda faltava mais de 3,5 km de caminhada. Já era de se esperar que pegaríamos um pouco da noite na trilha.
Depois de 9 horas de caminhada chegamos em Tronqueiras, onde o Roberto nos esperava e também o resto da nossa equipe. Já estava escuro. Ficamos um pouco preocupados com o grupo do outro guia que estava na montanha, descobrimos que muitos não tinham lanternas, mas até onde eu sei tudo deu certo para eles também. Partimos para o camping e sujos, do jeito que estávamos, fomos jantar e comemorar mais uma conquista. Depois do banho, agora era só aproveitar o momento entre amigos e dar muitas risadas sobre o que aconteceu na montanha.

01/05/2017 O retorno pra casa, 22 horas dentro de uma van.
Decidimos não tomar o café no Restaurante Mineiro assim ganharíamos tempo para chegar o mais rápido possível em casa. Acordamos as 4h da manhã, desmontamos tudo e partimos em direção a nossa cidade. A Rafa, esposa do nosso amigo Jhonatan, estava passando mal. Descobri que ela estava assim em quase toda a trilha que tínhamos feito no domingo, não deve ter sido fácil pra ela o retorno pra casa. Nos revezando o tempo todo dentro da van. Já passava das 19 horas quando chegamos em São Paulo. O transito ali estava bem tenso e chato, perdemos um precioso tempo nesse trecho. Por volta da 23:00 chegamos em Registro e às 2 horas da manhã finalmente chegamos em Curitiba.
Foram mais ou menos 40 horas dentro de uma van e 9 horas de trilha. Aí eu pergunto: o que é mais difícil aguentar esse tempo todo dentro de uma van ou fazer uma longa trilha? Eu prefiro trilha! Mas digo que as 40 horas na van foi muito bacana, muitas risadas, assistimos ótimos filmes e ouvimos boa música, deixou uma saudade no coração e um gostinho de “vamos voltar um dia”.

Agradecimentos:
Ao nosso motorista Bob que nos passou toda a confiança no volante sendo um ótimo motorista. Roberto do Restaurante Mineiro que nos deu todo o suporte que precisávamos, como camping, janta, café da manhã e auxilio com o 4x4 e também nos provou que o povo mineiro é simpático de mais, sô! À pousada Cantinho Bistrô por acolher nosso motorista. Sairo C. Guedes e Anderson R.Estevanovic guias da região que me passaram várias dicas do local. E, acima de tudo, a Deus que nos proporcionou uma linda aventura.

Montanhistas:
Reginaldo Mendes
Paula Lipinski
Beatriz Andreis
Douglas Rengel
Tere Tessaro
Edinaldo Couto
Sergio Emiliano
Perla Steil
Percio Sousa
Fernanda Lopes 
Raphaela Cristina
Jhonatan Bortolato
Sandro Godoy
Fernando Ferreira
Luciane Wamser



Nosso café da manha na estrada


Faltando pouco para chegar em Alto Caparaó

Relaxando antes da subida do dia seguinte

Portal do Alto Caparaó

Vamos nessa que o dia promete



Chegando na portaria do lado ES






As meninas: Perla, Beatriz, Paulinha, Tere, Fernanda, Luciane e Rafa

Os Meninos: Fernando, Sandro, Douglas, Percio, Edinaldo, Reginaldo, Sergio, Jhonatan

O Começo da trilha


No pé do Cristal




Cristal mostrando as caras

Cume Cristal
Cume Cristal



A subida foi tranquila

Ponto de referência para se chegar ao Cristal deve pegar a esquerda 
Cume do Calçado



Chegando no Calçado





É possível avistar o Bandeiras

Bem próximo do Bandeiras



No cume do Bandeiras

Para você Arthur











Terreirão


Fim da travessia

A saideira 


Um abraço a todos e até a próxima.